terça-feira, 15 de junho de 2010

Recado das RUAS ao Novo Presidente

Educação é sempre tema de palanques em tempos de eleições, e só, depois voltamos a estaca ZERO e nada acontece de fato que coloque a educação em prioridade.  A população não aguenta mais e sente na pele, na vida dos filhos e de cada um a necessidade de uma melhor EDUCAÇÂO para galgar seus sonhos e objetivos cada vez mais dificil.
Um Estado que não usa a política como ponte para os sonhos e realizações do seu povo, pelo contrário tira deste, com aviltantes taxas e impostos seus regalos, não merece  a soberania e autoridade que o povo lhe dá. 
  
Qualidade da educação básica depende do Estado, aponta Ibope

Pesquisa mostra que eleitores consideram governos responsáveis pelo ensino e colocam área entre prioridades para eleições 2010

Priscilla Borges, iG Brasília
09/06/2010 22:00

Para a maioria dos eleitores brasileiros, o poder público é o grande responsável pela qualidade da educação brasileira. É o que revela pesquisa realizada entre 13 e 18 de maio pelo Ibope Inteligência, Campanha Todos pela Educação e Fundação SM com 2 mil eleitores com mais de 16 anos em todo o País.

Os resultados mostram que, para apenas 10% dos eleitores, os professores - muitas vezes apontados como responsáveis pelo fracasso ou sucesso do ensino - são os mais determinantes para a qualidade da educação. Em 2006, quando a mesma pesquisa foi feita, 27% dos entrevistados consideravam os docentes tão responsáveis pelo sucesso do ensino quanto o governo federal (também com 27% das afirmações). Os professores só perdiam para o Ministério da Educação, avaliado por 29% da amostra como o principal ator nesse processo.
De acordo com os pesquisadores, a população deixa claro que o papel de assegurar educação básica de qualidade aos brasileiros é do Estado. “É um dado que chama a atenção porque mostra um amadurecimento da sociedade ao reconhecer que existem responsáveis pela qualidade da educação e eles são os gestores que a gente elege”, ressalta a diretora-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz.
Cada eleitor podia citar os três órgãos que consideravam mais determinantes para a educação brasileira. A maioria dos entrevistados (55%) afirmou que o governo federal é o órgão que mais pode contribuir. O Ministério da Educação foi citado por 39% dos entrevistados.
A importância das outras instâncias de governo para garantir bom ensino público às crianças também aumentou. Em 2006, 23% dos eleitores citaram as prefeituras como grandes responsáveis por isso. Agora, o índice sube para 42%. Os governos estaduais, que foram citados em 2006 por apenas 16% dos entrevistados, foram indicados por 33% da amostra. As secretarias municipais e estaduais aparecem em 25% e 18% das respostas, respectivamente.

Prioridades:  Áreas problemáticas do País
Pesquisa estimulada com escolha de três opções
A educação básica também subiu em posto não satisfatório, mas considerado importante pelos especialistas: o dos problemas do País. A etapa educacional aparece em 27% das respostas à pergunta sobre quais são as áreas mais problemáticas do Brasil (cada um podia escolher até três), colocando o tema( Educação) em terceiro lugar nas preocupações junto com drogas e emprego. Na pesquisa realizada em 2006, a educação aparecia em 7º lugar.

“É uma boa notícia porque as mudanças dependem da consciência de que há algo para ser melhorado. Esse é um movimento importante que a sociedade fez”, ressalta Priscila. Ana Lima, pesquisadora do Ibope responsável pelo estudo, ressalta que, com a estabilidade da economia, as preocupações dos brasileiros estão mudando. “Há 15 anos, as pesquisas apontavam que o desemprego era considerado o pior problema. Agora as prioridades estão mudando”, diz.
Ana ressalta outro aspecto que considera importante na pesquisa: as soluções para os problemas do País. Ela conta que os entrevistados foram perguntados sobre quais áreas deveriam receber atenção especial do próximo presidente da República para saná-los. A educação apareceu 28% das respostas. Um crescimento de 13 pontos percentuais em relação a 2006, quando ela foi apontada por 15% das pessoas.

Áreas que devem ter atenção do próximo presidente

Pesquisa estimulada com escolha de três opções Esse é um recado que os brasileiros estão dando aos candidatos. A educação é uma pauta emergente, que deve estar entre as prioridades deles também. Eles precisam dar mais transparência aos programas de governo, apresentar melhor as propostas à população”, afirma a diretora do Todos pela Educação.
O objetivo da pesquisa era avaliar, principalmente, como a educação é percebida pela população que vai eleger os novos governantes e quais as expectativas dela em relação ao próximo presidente. Os entrevistados também opinaram sobre pontos fortes e fracos do sistema educacional brasileiro.

Professores precisam ser valorizados, mostra pesquisa
Para 41% dos entrevistados pelo Ibope, os próximos governantes precisam melhorar o salários dos professores

Priscilla Borges, iG Brasília
09/06/2010 21:00

• Os professores precisam ser valorizados, segundo pesquisa Ibope Inteligência, Campanha Todos pela Educação e Fundação SM divulgada nesta quarta-feira. O estudo foi realizado entre os dias 13 e 18 de maio com 2.002 eleitores com mais de 16 anos de todas as regiões do País.

Para 41% dos entrevistados, os próximos governantes precisam melhorar o salários dos professores. É a principal medida apontada pelos eleitores para o futuro. Na sequência, eles querem equipar melhor as escolas já existentes (29%), criar escolas profissionalizantes (28%), melhorar a segurança nas instituições (28%), construir mais salas de aula (26%) e melhorar a capacitação dos professores, oferecendo formação melhor (26%).

A importância do magistério para os brasileiros é evidenciada também pela avaliação feita dos pontos fortes e fracos da educação nacional. A qualificação dos docentes aparece em terceiro lugar na lista dos aspectos positivos, com 21% das indicações. Por outro lado, o mesmo item foi citado como ponto fraco por 24% das pessoas, em segundo lugar dos negativos. Cada um podia citar até três aspectos.

O salário dos professores é considerado por 46% dos entrevistados como o ponto mais fraco da educação brasileira, junto com a segurança nas escolas (46%). Esses dois problemas foram apontados como principais em todas as regiões e por eleitores de todas as classes sociais. O número de docentes do País também é citado como negativo por 22% dos participantes.

Os pontos mais fortes apontados pela amostra são a merenda (29%), seguida do número de escolas e vagas (25%) e do material didático (25%).

Governo Lula

A pesquisa Ibope mediu o grau de satisfação dos entrevistados com educação durante o governo Lula. A Educação Básica aparece abaixo da média, com 2.8 de grau de satisfação numa escala de 1 a 5, atrás de áreas como política externa (3.4) , economia (3.1), infraestrutura (3.0), educação superior (2.9) e meio ambiente (2.9).
Entre os entrevistados que têm filhos em escolas públicas (77%), a avaliação segue o mesmo índice. Eles atribuem 3.0 para ensino superior e 2.9 para educação básica. A região Sudeste é a que apresentou as piores médias: 2.6 para ensino superior e 2.5 para educação básica.

Avaliação da educação básica pública no Brasil

percepção em relação à educação pública no País apresentou melhora, quando comparada à avaliação de 2006. O percentual de entrevistados que a consideram ótima passou de 25% para 34%. A parcela dos que a consideram ruim/péssima diminuiu de 28% para 21% e manteve-se praticamente constante o total dos que a consideram regular (de 45% para 44%).

A região Sul é a que melhor avalia a educação básica brasileira, com 50% de ótima, enquanto a região Sudeste é a que pior avalia com 28% para ruim/péssima.

Em relação à qualidade da Educação Básica pública no País, 51% dos entrevistados apontam que esta área está melhorando, porém, em ritmo lento. Na região Norte/Centro Oeste esta parcela é de 70%.

Metas
Um dos objetivos da pesquisa era conhecer o perfil dos eleitores brasileiros e saber quais as expectativas deles em relação à educação básica, ressalta a diretora-executiva do Todos pela Educação, Priscila Cruz. “Nosso trabalho é influenciar nas decisões políticas e propor soluções para a educação. Para isso, é fundamental conhecermos as expectativas da sociedade”, diz.

A Campanha Todos pela Educação pediu que os entrevistados avaliassem as cinco metas definidas para melhorar a educação do País até 2022: toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola; toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos; todo aluno com aprendizado adequado à sua série; todo jovem com o ensino médio concluído até os 19 anos e investimento em educação ampliado e bem gerido.

A pesquisa pediu aos participantes que avaliassem o grau de dificuldade que percebiam no alcance das metas. A maioria considerou que todas as metas são igualmente possíveis de serem atingidas até 2022. Em uma escala de 1 a 5, as médias ficaram entre 3.2 e 3.4. A mais importante para a maioria (34%) é a primeira: toda criança e jovem entre 4 e 17 anos na escola. Na sequência, empatam a alfabetização até 8 anos e a ampliação dos investimentos.

A pesquisa Ibope mediu o grau de satisfação dos entrevistados com educação durante o governo Lula. A educação básica aparece abaixo da média, com 2.8 de grau de satisfação numa escala de 1 a 5, atrás de áreas como política externa (3.4) , economia (3.1), infraestrutura (3.0), educação superior (2.9) e meio ambiente (2.9).
Entre os entrevistados que têm filhos em escolas públicas (77%), a avaliação segue o mesmo índice. Eles atribuem 3.0 para ensino superior e 2.9 para educação básica. A região Sudeste é a que apresentou as piores médias: 2.6 para ensino superior e 2.5 para educação básica.

A região Sul é a que melhor avalia a educação básica brasileira, com 50% de ótima, enquanto a região Sudeste é a que pior avalia com 28% para ruim/péssima.

Em relação à qualidade da Educação Básica pública no País, 51% dos entrevistados apontam que esta área está melhorando, porém, em ritmo lento. Na região Norte/Centro Oeste esta parcela é de 70%.

A margem de erro de todas pesquisas realizadas é de dois pontos percentuais.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A BUSCA DA FELICIDADE

FELICIDADE

CAROL PIRES - Agência Estado


A busca da felicidade deve ser um direito expresso na Constituição Federal, de acordo com proposta defendida pela senador Cristovam Buarque (PDT-DF). Para torná-la realidade, Buarque está disposto a apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) neste sentido. O novo artigo, se aprovado, seria somado às demais garantias constitucionais, como educação, dignidade, saúde e respeito. Sentado à mesa com o publicitário Mauro Motoryn e o presidente da Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais, Luciano Borges dos Santos, Cristovam Buarque se adianta ao início do assunto e arremata, antes que qualquer pergunta lhe seja dirigida: "Veja: não é direito à felicidade, é direito à busca da felicidade".

A inclusão desse artigo na Constituição, na avaliação do senador, não tem efeito prático no sentido de que o governo estaria obrigado a criar projetos com o único objetivo de garantir a felicidade dos cidadãos. O objetivo seria subjetivo, ao carimbar no imaginário da sociedade a importância da dignidade humana. "Você personaliza os direitos", explicou o senador. "Um projeto em discussão no Senado sobre educação de professores não tem como fim a educação em si, mas a felicidade das crianças", completou. "Não aumenta o direito do cidadão, aumenta a força dos direitos que ele já tem".

Luciano Borges dos Santos acrescentou que, com a aprovação do projeto, as políticas públicas deverão ter mais foco no resgate da cidadania. Cristovam Buarque dá um exemplo do que seria evitado caso o projeto fosse aprovado: "O presidente Lula cometeu um grande erro quando mudou o nome do Bolsa-Escola para Bolsa-Família, porque, antes, a mãe pensava que recebia aquele dinheiro para o filho ir à escola, e ficava orgulhosa. Agora, pensa: eu recebi este dinheiro porque minha família é pobre".

Tramitação

O projeto sequer está escrito ainda, mas começou a ganhar contornos hoje, quando foi debatido em audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado, com a participação de entidades de apoiam a proposta, como o Movimento Mais Feliz, além de personalidades do meio artístico, como o ator Cássio Reis. Com o projeto em mãos, Buarque ainda precisará da assinatura de 27 senadores para poder apresentar a PEC da Felicidade para a Mesa Diretora do Senado, que irá determinar quais comissões temáticas deverão debatê-la. Pelo regimento, para incluir uma emenda à Constituição, o texto precisa ser aprovado em duas rodadas de votação na Câmara dos Deputados e duas no Senado antes de ser levado à promulgação.

O publicitário Mauro Motoryn, que teve a ideia da proposta e a levou a Cristovam Buarque, propõe que, além de coletar a assinatura dos senadores, a proposta também corra nas ruas. O propósito é ganhar o apoio da sociedade, a exemplo do projeto Ficha Limpa, de autoria popular que foi aprovado pelo Congresso na semana passada. "Em ano eleitoral, as pessoas devem perceber que o voto delas pode ser um meio de atingir a felicidade. O lema deve ser: vote pela felicidade", afirma Motoryn.


Será um despropósito?
Ou estão mesmo procurando sentido para o Estado?
Será que eles tem em vista os artigos 24, 25 e 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos ?
Dê sua opinião.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O dia em que o PT morreu: quando nem os fins nem os meios se justificam

Valério Arcary


"O fim justifica os meios? Essa doutrina contraditória, psicologicamente inconcebível, foi malignamente atribuída aos jesuítas pelos seus adversários protestantes - e às vezes católicos - que, por sua vez, pouco se preocupavam com escrúpulos na escolha dos meios para atingir seus próprios"fins"(...)Por sua vez, os jesuítas, rivalizando com os protestantes, adaptaram-se cada vez mais ao espíri to da sociedade burguesa e dos três votos - pobreza, castidade e obediência - conservaram apenas o úl­timo, ainda assim de forma bastante atenuada. Do ponto de vista do ideal cristão, a moral dos jesuítas caiu tanto mais baixo quanto mais eles cessaram de ser jesuítas. De guerrilheiros da Igreja passaram a ser burocratas e, como todos os burocratas, uns pilantras de primeira.". Leon Trotsky[1] Reler os clássicos quando estamos diante de acontecimentos que sugerem mudanças de dimensões históricas é uma das tradições da esquerda que se perdeu, mas que devemos recuperar. A epígrafe de Trotsky remete a dois dos temas candentes da conjuntura brasileira: a relação entre os fins e os meios para uma estratégia socialista, e os processos de adaptação social e deformação política de organizações que se transformam no contrário do que pretendiam ser quando constituídas. Trotsky admite que a Companhia de Jesus nasceu como umaresposta medieval à Reforma Protestante, portanto, historicamente, reacionária, porém, com o tempo, se adaptou às pressões sociais do capitalismo. Os jesuítas, até para permanecer no Vaticano, deixaram de ser jesuítas. O processo de evolução histórica do PT chegou, também, a uma encruzilhada: para se credenciar como um partido eleitoral resignado aos estreitos limites do regime democrático-liberal no Brasil, ao longo dos vinte anos que nos separam do fim do regime militar, o PT precisou deixar de ser petista. Renegar a sua origem foi um processo de readequação política, mas, também, de transformismo social, uma ruptura com as bases sociais de sua constituição apoiado na CUT e no MST. São dois, também, os argumentos deste artigo. O primeiro éa constatação inescapável, mas que encontra previsíveis resistências, de que a crise do PT é terminal. O segundo é a defesa da luta contra a corrupção como uma bandeira democrática incontornável do programa da revolução brasileira, tema polêmico, portanto, vital, para a reorganização sindical e política em curso, com o colapso da CUT e do PT. Estas duas premissas se articulam para defender que a esquerda anti-capitalista não pode hesitar diante da luta para derrubar o governo Lula. Estamos diante de uma nova etapa histórica. Afinal, já foram dez os presidentes eleitos e derrubados na América Latina - por mobilizações de massas operárias e populares, não por golpes militares pró-americanos, como na sequência da revolução cubana - depois do fim dos anos oitenta, expressando a fragilidade da democracia-liberal no continente. O que nos devolverá à discussão sobre os fins e os meios. Capitalismo e corrupção Recordemos, para começo de conversa, o que a história e o marxismo nos deixaram como fundamentos "graníticos" sobre a corrupção. Nunca existiu capitalismo sem corrupção. Capital e Estado estiveram sempre unidos através das mais variadas cumplicidades. Desde o alvorecer das pioneiras Repúblicas italianas, quando a Europa recuperou ao Islã o controle das lucrativas rotas comerciais do Mediterrâneo, passando pela conquista da América pelas Coroas ibéricas, sem esquecer os quase cento e cinqüenta anos de disputa entre Londres e Paris pela supremacia no mercado mundial: a corrupção estava lá, em todos os portos, em todos tribunais, em todas as Cortes, em todas as línguas. A corrupção nunca foi privilégio dos latinos, nem dos chineses, nem dos árabes. Desde o século XIX falou, sobretudo, o latim moderno, o inglês. Comprando favores, deslocando concorrentes, driblando as leis, subornando autoridades, obtendo cargos. A força do dinheiro abrindo as gavetas do poder, e o domínio do Estado favorecendo os cofres da riqueza. Quando argumentamos que capitalismo e corrupção sempre caminharam de mãos dadas, muitos nos perguntam se a corrupção não seria inevitável em qualquer sociedade, porque, afinal, ninguém ignora que tanto na URSS, quanto na China, as burocracias estatais se regozijavam em privilégios driblando as suas próprias leis. A corrupção não seria expressão das incoerências sombrias da natureza humana? Os socialistas defendem que não existe fatalismo na condição humana que nos condene a corrupção. Assim como existiram sociedades que desconheceram a exploração do homem pelo homem, ignoraram a corrupção. A corrupção é uma doença econômico-social, e se explica em função de circunstâncias históricas. A percepção de que, no Brasil, a apropriação privada do Estado pelo mundo dos negócios teve sempre na sua raiz a impressionante desigualdade econômica e social, é chave para mantermos o sentido das proporções diante do colapso do PT. Ao se transformar, a partir de 1988, em um partido que se credenciava para a gestão do Estado sem ameaçar o capitalismo, o PT selou o seu destino. Um programa de adaptação política a um capitalismo que não cresce, em uma sociedade em que a desigualdade não deixa de aumentar, e na qual a mobilidade social vem diminuindo há um quarto de século, ou seja, um reformismo sem reformas, não poderia evitar a degeneração metodológica e ética. Ensina a sabedoria oriental que o peixe morre pela cabeça. Já o Padre Antonio Vieira dizia que o peixe apodrece pela cabeça. O marxismo alerta que a cabeça não é imune à pressão do chão que os pés pisam. O PT escolheu um caminho de social democratização que játinha sido trilhado na América Latina por muitos outros, até por organizações que encabeçaram revoluções democráticas, como os sandinistas.Se, mesmo os partidos que se formaram na severidade das condições da luta armada contra ditaduras - como a FSLN, os Tupamaros ou a Farabundo Marti - quando aceitaram se transformar em partidos eleitorais, se descobriram vulneráveis diante da pressão política e social da democracia liberal, parece inescapável que o PT, que já nasceu como um partido eleitoral, seria presa fácil da corrupção endêmica do Estado brasileiro. Era, no fundo, só uma questão de tempo, para que o PT evoluísse do financiamento legal dos monopólios - em prática desde 1994 - para um sistema de caixa dois - a exemplo dos partidos tradicionais - e, depois, para a transferência derecursos arrecadados para os partidos aliados, o sistema de mensalão para assegurar maioria no Congresso, culminando com o enriquecimento ilícito dos seus burocratas. O domínio do Capital sempre foi a associação legal e ou ilegal, portanto, sempre ilegítima e imoral, da riqueza com o poder. Todos os partidos comprometidos com o regime democrático-eleitoral e, por isso, financiados pelo capital, foram aliciados, em todos os tempos e lugares, pela força do dinheiro. Nos últimos cem anos, à escala mundial, a imensa maioria dos instrumentos da representação política dos trabalhadores, no centro ou na periferia, quando se consolidaram regimes democráticos, foram absorvidos pela pressão do eleitoralismo. A social democracia européia antes da I guerra, ou os partidos eurocomunistas depois dos anos 60, muito antes do PT, confirmaram que é difícil, politicamente, e complexa, social e organizativamente, a construção de reservas ou filtros de imunidade diante da pressão de forças sociais hostis. Degeneraram, absorvendo além dos métodos do eleitoralismo, os seus vícios. Seus dirigentes, fossem do SPD na Alemanha e do Labour na Inglaterra, ou do PCF na França e do PCI italiano, experimentaram, primeiro nos parlamentos, depois com o ministerialismo, um processo de ascensão econômica e acomodação social irrecuperável. Adaptação política e degeneração burocrática Admitamos, contudo, que os privilégios dos aparelhos social-democratas foram a ante-sala de aberrações ainda mais graves. Não bastassem as desprezíveis excentricidades da burocracia russa, como a coleção de automóveis de Brejnev, ou a cômica sucessão de tipo monárquico, em nome do socialismo, do regime totalitário na Coréia do Norte, a esquerda do século XX viveu a degradação do assalto dos sandinistas às mansões na Nicarágua. Pressões sociais em sociedades desiguais nunca devem ser, portanto, subestimadas: os que se deixam confundir politicamente, assimilam os métodos da política burguesa - em que tudo são mercadorias, incluindo o voto - e, finalmente, se rendem a um modo de vida de ostentação. É o que confessam os principais líderes petistas quando, de maneira até grotesca, invocam absolvição porque estavam agindo de acordo com as "regras do jogo". Mas, agora, o PT morreu. Morreu, comparativamente, como o estalinismo morreu com a queda do muro de Berlim. Está acontecendo o que os dialéticos denominam o salto de quantidade em qualidade. Quando o publicitário que criou o Lulinha paz e amor confessou seus pecados, ironia da história, enfiou uma adaga no coração do PT. O enquadramento histórico parece incontornável, sob pena de qualquer análise sucumbir aos impressionismos de conjuntura. Só uma perspectiva mais ampla permitirá explicar como o partido político que foi a expressão eleitoral do movimento operário sindical e da maioria dos movimentos sociais brasileiros nos anos oitenta, se transformou, a partir de sua mais alta direção, irrecuperavelmente, neste espantoso amálgama de arrivistas e vigaristas. O tema da burocratização dos partidos de trabalhadores assalariados em sociedades urbanas permanece um fenômeno polêmico. Ao analisar a socialdemocracia de cem anos atrás, Lenin recorreu ao conceito de aristocracia operária para tentar explicar a crescente diferenciação social no mundo do trabalho na passagem do século XIX para o XX, e tentar compreender porque uma maioria das bases sociais e eleitorais da socialdemocracia apoiou seus respectivos governos, quando do início da guerra de 1914. No entanto, é menos lembrado que Lenin previu que esse apoio seria efêmero, mesmo entre os setores da classe trabalhadora que obtiveram concessões na etapa histórica anterior. A aristocratização de um segmento da classe operária era compreendido pela esquerda marxista como um fenômeno, essencialmente, econômico e social, enquanto o agigantamento do aparelho sindical e das frações parlamentares absorvidos pelo Estado, era discutido como um processo, essencialmente, político-social. Aristocracia operária e burocracia operária não eram identificados como o mesmo fenômeno social, porque a aristocracia, um conceito relativo às condições materiais e culturais de existência da classe trabalhadora de cada país. Permanecia sendo um setor de classe, ainda que privilegiado, enquanto a burocracia sindical e parlamentar dos aparelhos socialdemocratas seria uma casta exterior ao proletariado. A experiência do PT e da CUT é uma confirmação quase caricatural deste prognóstico. Crise terminal do PT e enfraquecimento do governo Lula. Estamos há dois meses diante de duas crises que, não sendo iguais, correm paralelas e são indissociáveis: a crise terminal do PT e a crise política do governo Lula. O PT, tal como foi nos últimos vinte e cinco anos, não poderá resistir. Estamos acompanhando uma revolução mental na cabeça de milhões de trabalhadores e jovens, um processo de importância histórica. O PT poderá, talvez, subsistir como um partido eleitoral, ainda assim, se expulsar grande parte da sua direção histórica, mas nunca mais poderá ocupar o papel que teve junto aos setores organizados das classes trabalhadoras e aos movimentos sociais. Será um partido eleitoral com outra base social. Enganam-se aqueles que subestimam a atual crise do petismo. O desmoronamento da autoridade do PT - em menor medida, do próprio Lula - que se aguentou na corda bamba nos primeiros trinta meses de governo, mesmo se com uma política anti-popular, tende a ser vertiginoso. O que não impede que as parcelas mais atrasadas, desinformadas e, sobretudo, desorganizadas da população, aquelas que foram as últimas a girar eleitoralmente para o apoio a Lula, possam continuar exprimindo durante alguns meses, ou até mais tempo, intenção de voto em Lula para 2006. Foram os últimos a se deslocar para o apoio a Lula, porque nunca tiveram referência no PT ou, de resto, em qualquer partido, e serão os últimos a romper. Esse processo profundo e mais lento não será, contudo, relevante para o destino do PT. O futuro do PT está sendo decidido nas grandes fábricas, como nas montadoras e nas siderúrgicas, nas refinarias da Petrobrás, nas Universidades, entre as classes médias de alta escolaridade e baixos salários, enfim, nas grandes cidades e nos movimentos sociais que sempre foram a sua retaguarda social. Já o governo Lula ainda não acabou - não se sustentava somente no PT - embora esteja muito fragilizado. Dependeu nestes trinta meses do apoio do imperialismo, da banca, das empreiteiras, da mídia, enfim, das instituições, como o Congresso, o judiciário e as FFAA, embora não fosse a opção preferencial da burguesia nas eleições de 2002. A sua manutenção, mesmo se agônica, na forma de um governo Palocci/Lula interessa às forças sociais e políticas comprometidas com a preservação da ordem. Não surpreende que estejam atarefadíssimas na articulação de um "acordão" que poupe Lula - e o próprio congresso - de um impeachment, da posse de Alencar ou de eleições antecipadas. Entretanto, a crise permanece aberta. O Governo Lula/Dirceu/Palocci dos últimos dois anos e meio não existe mais. O governo Lula vive, por suposto, uma profunda crise política desde que se precipitou a denúncia de que o PT teria transferido fundos para os partidos de aluguel como o PL, PP e PTB, reconhecidas pelo próprio Roberto Jefferson como mercenárias, e que lhe garantiram uma maioria no Congresso Nacional, como aliás já faziam para o governo FHC. Não é segredo para ninguém bem informado que há muitos anos, pelo menos de 1994, o PT tem financiado as suas campanhas com milionárias contribuições dos principais monopólios brasileiros. Mas, apesar destas evidências, a direção do PT manteve a imagem de sua integridade moral intacta diante da maioria de suas bases sociais. Argumentava que aceitar o dinheiro das grandes corporações era parte das "regras do jogo", ou seja, que os fins justificavam os meios. As denúncias do "mensalão" poderão ser, contudo, decisivas para confirmar o que já se suspeitava há muito: (a) que o PT mantém, também, a exemplo dos partidos burgueses, um caixa dois para financiamento eleitoral; (b) que o PT, quando no Governo federal - e por que não, quando nos estados e municípios? - favoreceu empresas privadas, como as empreiteiras que concorrem pelos contratos milionários de arrecadação de lixo, ou as publicitárias, em licitações públicas; (c) que ocorreram desde 1988 dois processos simultâneos e indivisíveis: profissionalização de um aparelho de vários milhares de quadros que fazem um rodízio nacional pelos cargos de prefeituras e administrações estaduais, associado ao enriquecimento ilícito de uma parte de sua direção. A questão decisiva para a esquerda anti-capitalista social e política é ajudar a unir estas duas crises que correm em ritmos diferentes: fazer que a perda de confiança na CUT e no PT se transforme em ruptura política como o governo Lula. Ajudar os milhões que formaram ao longo dos últimos vinte e cinco anos a base social do petismo a ir além da tristeza e do desânimo, e construir uma mobilização que traga um setor de massas, no início, um setor mais avançado e, possivelmente, mais jovem, para as ruas. O que não avança, retrocede. Já sabemos que, se não houver pressão popular, acrise se resolverá por dentro das instituições com algumas cassações de deputados - e com algumas, poucas, expulsões do PT - e Lula procurará relocalizar seu governo diante da burguesia prometendo a reforma política, a sindical, e a jóia mais cobiçada de todas, a reforma trabalhista. Não há porque temer a debilitação do governo e, se possível, a sua derrubada. O governo Lula não é um governo de esquerda. Quem o disse foi ninguém menos ... do que o próprio Lula. Praticou o maior superávit de orçamento da história do país, transferindo mais de R$150 bilhões por ano para os rentistas dos juros da dívida interna, sacrificando a educação e a saúde pública. Não há quem duvide que Serra não poderia ter feito a Reforma anti-popular da Previdência que Lula fez. O governo Lula é um governo socialmente burguês, economicamente neoliberal, politicamente reacionário. A natureza do governo Lula alimentou, contudo, inúmeras confusões na esquerda. O marxismo se distingue como corrente teórico-política, justamente, pelo esforço de fazer caracterizações sociais dos fenômenos políticos. Grande parte da intelectualidade petista, e a esquerda do PT - o próprio MST - invocaram a fórmula elíptica de um governo em disputa, um híbrido social. Mas, com o tempo, ficou claro que a mão pesou demais. É muito razoável reconhecer que todo governo pode ter uma ala esquerda, no sentido de que o ministério pode ser heterogêneo, porém, finalmente, há uma dinâmica que se impõe. O governo Lula não permite paralelo, por exemplo, com o governo Chavez, que era o grande temor de uma parcela do governo americano, tranqüilizada pela embaixadora de Washington em Brasília. O governo Chavez remete às experiências do Governo Cárdenas no México dos anos trinta, e aos governos Perón na Argentina e Vargas no Brasil, nos anos cinqüenta. Após a crise de 1929, quando a supremacia inglesa já tinha sucumbido, e uma nova hegemonia estava em aberto, uma vaga revolucionária sacudiu a Europa - Espanha, França e Alemanha - e a crise mundial favoreceu o surgimento de governos que buscavam uma margem de maior autonomia no sistema mundial de Estados. Trotsky sugeriu o conceito de semi-bonapartismo ou bonapartismo sui generis para explicar o governo Cárdenas. "Nos países industrialmente atrasados o capital estrangeiro joga um papel decisivo. Por isso, a relativa debilidade da burguesia nacional em relação ao proletariado nacional. Isto cria condições especiais para o poder estatal.O governo oscila entre o capital estrangeiro e o capital nacional, entre a relativamente débil burguesia nacional e o relativamente poderoso proletariado. Isto dá ao governo um carácter bonapartista sui generis, de tipo particular. O governo se eleva, para tentar descrevê-lo, por cima das classes. Na realidade, pode governar convertendo-se em instrumento do capital estrangeiro e submetendo o proletariado com as cadeias de uma ditadura policial, ou manobrando com o proletariado, chegando inclusive a fazer-lhe concessões, ganhando deste modo a possibilidade de dispor de certa liberdade em relação aos capitalistas estrangeiros." (tradução nossa)[2] O conceito de bonapartismo é especialmente complexo porque questiona a idéia simples de que haveria uma correspondência direta entre as classes e o Estado. Surgiu no marxismo para tentar explicar governos nos quais o Estado arbitrava entre diferentes classes proprietárias, apoiando-se em setores não proprietários. Napoleão III teria se apoiado no campesinato para isolar o proletariado, e mobilizar sob a bandeira da unidade nacional a favor do mundo das finanças, e Bismarck fez concessões ao nascente proletariado, para manobrar contra a burguesia dos principados ocidentais anexados a favor dos junkers do Leste. Adaptado à experiência de um país semi-colonial, e reformulado como semi-bonapartismo para definir o governo Cárdenas, que suspendeu o pagamento da dívida externa, e realizou uma reforma agrária, reconhecendo os ejidos - a posse de terras comunitárias - procurava explicar o alcance de uma política nacionalista que se apoiava nas classes populares, arbitrando novas condições com o imperialismo, ainda nos limites do capitalismo. Mas, Lula não é Chavez, nem sequer um Cárdenas do início do século XXI. Na política, como na vida, o que não se enfraquece, se fortalece. O governo Lula só poderia se fortalecer, nas atuais circunstâncias, se desse um giro à direita mais anti-popular, abraçando o plano de um superávit nominal zero, ou seja, um arrocho próximo a 10% do PIB para o pagamento dos juros. Um governo Lula/Delfim Neto seria, no entanto, para os trabalhadores e o povo uma catástrofe nacional. Um governo Lula mais fraco é, portanto, muito melhor que um governo Lula forte. E, sendo possível mobilizar para derrubá-lo, não haveria porque hesitar, mesmo se hoje não podemos vislumbrar a possibilidade da luta direta pelo poder pelas forças anti-capitalistas. Um governo Alencar seria ainda mais frágil. Já a antecipação do calendário eleitoral exigiria um enorme grau de improviso por parte da burguesia que não tem candidatos fortes - tanto PSDB quanto PFL têm contas a explicar - e diminuiria em muito as possibilidades de um PT reciclado com outro candidato, abrindo espaço para uma recomposição da esquerda sobre novas bases políticas e metodológicas. Uma candidatura de esquerda socialista, construída tanto de baixo para cima pelo sindicalismo classista, pelos ativistas independentes do movimento popular e estudantil, quanto por uma articulação madura e paciente do PSTU, PSOL e Consulta Popular com um programa anti-imperialista e anti-capitalista, poderia ser o início de uma nova etapa da esquerda, sobretudo, se forjada a partir de uma experiência de frente única na luta contra o Governo Lula. Tarefas democráticas e revolução socialista Muitos socialistas honestos se perguntam se a denúncia da corrupção, uma bandeira democrática, não deveria ser secundarizada porque, afinal, a prioridade de uma política de esquerda precisaria ter como identidade fundamental a apresentação, diante de todos os grandes acontecimentos, de uma saída de classe, portanto, anti-capitalista. Esta discussão tem duas dimensões, uma programática e outra ética. A dimensão programática é a compreensão que o programa da revolução socialista deve assumir, conscientemente, tarefas democráticas. A revolução social anti-capitalista contemporânea tem sido um processo de simultaneidade de várias revoluções. Sobre esta questão programática existiram duas posições simétricas, no passado, ambas equivocadas. A primeira e mais influente foi a do PCB que defendia que, sendo o Brasil um país atrasado em relação aos centros capitalistas, a revolução brasileira seria uma revolução nacional e democrática, tendo como centro um programa de industrialização e crescimento econômico. A etapa democrática era apresentada em oposição a uma ruptura socialista e, por isso, foram criticados, corretamente, como etapistas. Os sujeitos sociais interessados nesse programa, segundo a direção liderada por Prestes, seriam a burguesia industrial aliada às classes médias urbanas. Ficava reservado aos trabalhadores e ao povo pobre da cidade e do campo um papel de pressão sobre uma fração das classes proprietárias contra outras, sacrificado sua independência política. Esta elaboração explicava a seguidismo político do PCB face ao governo Jango. A outra posição, que influenciou a Polop, reconhecia que o Brasil era um país retardatário em que as tarefas agrárias, de distribuição da propriedade da terra, por exemplo, estavam pendentes, mas afirmava que, sendo o conflito entre capital e trabalho o mais agudo e ordenador de todas as outras lutas, a revolução brasileira seria socialista, ponto, e o seu sujeito social seria o proletariado. A história provou que ambas estas elaborações eram unilaterais, ou estavam diretamente erradas, mesmo se admitirmos, por justiça intelectual, que a primeira se demonstrou mais equivocada. Nos países periféricos como o Brasil, acompanhamos um processo de luta social em que as tarefas democráticas, historicamente burguesas, não puderam ser realizadas pelas classes proprietárias. Mas, isso não significa que tenham perdido importância, e que não haja uma revolução democrática por fazer, mesmo depois da queda da ditadura há vinte anos atrás. Até hoje, o Brasil permanece com uma espantosa concentração de terras em pouquíssimas mãos, enquanto milhões não têm terra alguma. Até hoje, o Brasil continua com uma inserção dependente no mercado mundial, exportando capitais através do pagamento da dívida externa, vendendo muito barato suas matérias-primas, e comprando caro manufaturados e pagando fortunas de royalties. Até hoje, vivemos em uma República que não é república, devorada pela corrupção e pela impunidade, porque riqueza e poder se protegem, reciprocamente, e a lei está muito longe de ser igual para todos. Isto foi assim e permanecerá assim, porque as classes proprietárias temem, acima de tudo, a mobilização independente das massas trabalhadoras da cidade e do campo. A revolução brasileira será, portanto, um processo de simultaneidade de várias revoluções, como tem acontecido, aliás, nos últimos anos na América Latina. O "que se vayan todos" da Argentina em 2001 e do Equador em 2005, expressava a radicalidade democrática do programa que permitiu a aliança do mundo do trabalho com as classes médias. O que pretendia traduzir? As massas estavam votando com os pés, marchando aos milhões, e dizendo que os políticos profissionais burgueses e seus aliados reformistas não deveriam poder mais se candidatar. Por isso, eram "escrachados" e desmoralizados, e não podiam mais sair de casa. Na Bolívia, a bandeira de luta contra a violenta repressão que deixou dezenas de mortos, e que levou à queda do "El Gringo" Gonzalo de Losada em 2003, e a bandeira do "Gás é nosso", que levou á derrubada de Mesa em 2005, traduziam a união das reivindicações nacionais anti-imperialistas com a justa ambição democrática de justiça para a maioria da população que é indígena e camponesa, e que sempre foram considerados pelos proprietários descendentes de europeus, como bolivianos de segunda classe. Os Fevereiros recorrentes latino-americanos desde 2000 - Equador em 2000 e 2005, Argentina em 2001, Venezuela em 2002 Bolívia em 2003 e 2005, as revoluções democráticas que permanecem incompletas, que derrubam governo atrás de governo, mas não se colocam a questão do poder, confirmam que processos de revolução socialista, mesmo se partindo de níveis de consciência e organização insatisfatórios, estão em marcha. A revolução brasileira não será diferente. Será um processo de mobilização em permanência em que às bandeiras de luta anticapitalista, como a nacionalização do sistema financeiro, por exemplo, se unirão as bandeiras democráticas radicais como a luta contra a corrupção, pelo fim dos sigilos bancários, fiscais e telefônicos dos corruptos e corruptores, pela expropriação de seus bens, pelo fim dos paraísos fiscais, etc... Será uma revolução nacional contra o imperialismo, uma revolução agrária contra o latifúndio, uma revolução democrática contra a corrupção, uma revolução negra contra o racismo. Será, contudo, uma revolução socialista, porque terá nos trabalhadores assalariados, a coluna vertebral da aliança popular com as camadas médias, e não se deterá diante da propriedade privada do capital. O fenômeno do substitucionismo social já adquiriu formas incríveis - como revoluções agrárias que se desdobram em socialistas como na China - e preparemo-nos para novas surpresas: tarefas democráticas elementares, até republicanas - como aprecia tanto a esquerda petista - só poderão ser realizadas com métodos revolucionárias, pelas classes que têm interesses anti-capitalistas. É a revolução permanente. Os fins e os meios A dimensão ética remete à relação entre os fins e os meios, que injustiçou no passado remoto os jesuítas - e no século passado os bolcheviques - e encontrou seus ecos no movimento socialista. O debate sobre estratégia e tática, qualificando os diferentes tempos da política, deu uma nova vida ao problema, na medida que crescentemente, a maioria das correntes que se reivindicaram socialistas no século XX, foram abandonando a perspectiva anticapitalista, adotando diferentes variantes de programas reformistas. Estabeleceram-se em relação ao tema, grosso modo, três posições fundamentais na esquerda contemporânea, embora com nuances intermediárias:(a) a posição que defende que os fins justificam os meios. Os seus defensores argumentaram que, ao final, com a perspectiva do tempo, seriam absolvidos. As sociais democracias francesa e alemã justificaram os genocídios da Primeira Guerra, esgrimindo que agiam em cumplicidade com suas classes dominantes, em nome da defesa da pátria. O estalinismo não hesitou, por exemplo, em defender até o pacto Ribbentrop/Molotov, ou seja, aceitou um acordo diplomático com o nazismo que não impediu que, dois anos depois, a URSS fosse invadida por uma Alemanha imensamente fortalecida. Os "realistas" se esquecem, porém, que meios indignos distanciam ou até comprometem os fins, porque os fins precisam, também, ser permanentemente, reafirmados, confirmados e justificados. Cometem, em nome do realismo político, o erro simétrico dos moralistas. Mas, dividem com eles o critério absurdo de que meios e fins independem uns dos outros;

(b) a posição dos moralistas que os meios são tudo, e os fins, nada.Afirmada, originalmente, pelo reformismo "a la Bernstein", virou uma coqueluche internacional com o crescimento dos Forums Sociais Mundiais e a popularidade das ONG's. A estratégia da luta se esgotaria na tática, esvaziando a política de invenção. Porque tudo são táticas que, erraticamente, se sucedem. Não há horizontes, não há projetos, não há programas. A política fica reduzida ao tempo do presente. A dimensão utópica do combate socialista, que só pode adquirir significado na revolução mundial, se perde. A história, de processo de vir a ser, passa a ser um eterno presente, comprometendo, portanto, uma perspectiva de luta pelo poder. Esta posição aparece, freqüentemente, camuflada com o argumento empirista de que o caminho se constrói caminhando, cuja conseqüência é a absolutização de critérios morais imperativos e universais. No limite, consiste em uma subordinação da política à moral, uma versão que pode ser mais ou menos laicizada (sob a forma de valores ahistóricos da "natureza humana"). Remete, em última análise, ao princípio teológico de que a moral independe da história, portanto, da sociedade e dos conflitos de classe no seu interior. Sendo os imperativos categóricos kantianos inaplicáveis, tanto sob as pressões da vida cotidiana, quanto na arena das lutas de classes quando esta se exacerba, os valores morais universais passam a ser um princípio sagrado irrevogável, porém inútil;

(c) a posição que defende que os meios e os fins têm entre si uma relação indissolúvel e, em uma sociedade dividida, o combate político é também um combate moral. Só seriam admissíveis, portanto, aqueles meios que estejam ao serviço da supressão do poder de uma minoria sobre a maioria: os meios que inflamam a indignação dos oprimidos, que exaltam a sua união e confiança em si mesmos, que confirmam a justeza de suas lutas. Obrigatório concluir que nem todos os meios são permissíveis. Devem ser condenados como indignos, por exemplo, todos os procedimentos que alimentem ilusões nos inimigos de classe e desconfiança entre os trabalhadores; os métodos dos burocratas que trocam confidências com os patrões e mentem, descaradamente, para as suas bases; os artifícios dos que lançam um setor do povo oprimido contra outros; ou que estimulem o seguidismo cego dos chefes; e, acima de tudo, o repugnante servilismo diante das autoridades, e o correspondente desprezo pela juventude e os explorados e suas opiniões; mas, reconhece, também, que não existe um catecismo que defina como mandamentos o que é consentido, e o que é impensável.

Valerio Arcary, professor do CEFET/SP, é autor de As Esquinas Perigosas da História, situações revolucionárias em perspectiva marxista. Foi membro do Diretório Nacional do PT a partir de 1987, e da Executiva Nacional do PT a partir de 1989. Foi expulso do PT no processo de exclusão da Convergência Socialista em 1992.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Desenvolvimento: para quê e para quem?

Estamos vivendo o frenético momento da Assembléia mundial do "Clima" onde parece como as outras reuniões programadas  com vistas a preparação  surtiram efeito "quase ou nenhum" o Governo brasileiro promove um "trem da Alegria" . Anotem  Prefeito de Guarulhos Senhor Sebastião Almeida , dias atraz panfletou em toda cidade que ele participaria da caravana do Presidente.
Porque este  comentário?
Guarulhos Governada pelo PT  em duas gestões é a cidade da Grande São Paulo que mais polui e não possui nada de tratamento de esgoto.
É bem verdade que em programa de TV o sr. Prefeito prometeu resolver toda questão até 2014.
A questão é?  A gestão de governo em Guarulhos recomenda a ida do Ilustre Petista na caravana? ou é uma viagem de amigos?


O texto a seguir é uma discussão séria sobre desenvolvimento.
numa hora que se fala muito em desenvolvimento sustentável .

Desenvolvimento: para quê e para quem?

por Michelle Amaral da Silva última modificação 15/06/2009 10:59
Colaboradores: Roberta Traspadini
O grupo dominado, mas em vias de superação, tem a escolha de criar novos modos de produção, utilizar os recursos de maneira diferenciada
Durante os últimos 70 anos, muito se discute na América Latina sobre crescimento, desenvolvimento, qualidade de vida, sustentabilidade, Estado de direito, entre outros conceitos historicamente determinados. Cada um deles, inseridos na célula básica de confrontação entre visões de mundo distintas.
Como definem estes conceitos, sujeitos políticos de ideologias diferentes? O que está por trás de suas visões de mundo? Quais as implicações históricas de um atuar com base em uma matriz dominante de “desenvolvimento”?
Autores contemporâneos, pós-modernos, defendem que entre as duas visões que serão tratadas neste texto, existem outras várias possibilidades de compreensão sobre o mesmo tema. No entanto, não acreditamos em múltiplos caminhos possíveis, frutos da consolidação de uma coluna do meio, que mescle interesses. Acreditamos nas derivações táticas a partir destas duas visões de conteúdo estratégico de classe.
Temos um método, um modo de caminhar com base em uma explicação específica. É através deste método, o materialismo histórico dialético (MHD), que analisamos a situação concreta com o intuito de transformá-la. Mas este não é um método único, nem o dominante. Mas nem por isso, o menos importante.
Com base neste método, acreditamos que o mundo está dividido em duas classes específicas: os que são os donos privados dos fatores e meios de produção, e os que são donos da força de trabalho. Os primeiros, detentores do poder, tanto do capital, quanto do Estado, subestimam aos segundos, produtores reais da riqueza de um País.
É a visão de mundo de cada um destes grupos, e a subordinação de um ao outro, o que imprime, na realidade vivida, a concretização dos conteúdos. Vejamos como estas linhas interpretam os conceitos.

1. O que é desenvolvimento?
Alguns autores, políticos, burgueses, definem o desenvolvimento como a capacidade de promover o crescimento econômico – medido tanto pela produção interna de riqueza, quanto de renda, e distribuí-lo de maneira eqüitativa. Nessa linha explicativa, crescer e desenvolver são duas facetas inseparáveis, mas a segunda está subordinada à primeira.
Já os autores, políticos, socialistas sustentam que desenvolver é a capacidade que o ser humano tem de promover uma transformação do meio, e de qualificação própria enquanto sujeito, para melhorar seu modo de vida, sem agredir e/ou colocar em xeque sua existência. Nesta linha argumentativa, desenvolvimento tem uma relação direta não com o crescimento, mas com a opção de modelo produtivo realizado.

2. É possível crescer e desenvolver ao mesmo tempo?
Para a primeira, modo central de realização de vida capitalista, a condição chave do processo de desenvolvimento vem da necessidade de consolidação do seu modo de produzir com fins mercantis, cujo objetivo maior é o afã de obter lucro a qualquer custo e por tempo (i)limitado.
Para a segunda, a condição chave está na possibilidade do ser humano, em harmonia com seu meio, no contexto histórico em que vive, rever substantivamente a proposta até então executada e dar um basta no modo depredador do meio, dos seres, do humano.

3. O que é sustentabilidade para estes grupos?
Para os capitalistas, sustentabilidade é a palavra encontrada no contexto histórico de colheita dos resultados catastróficos do capitalismo, para tentar encontrar soluções coletivas, tendo como base o uso individual permanente – em especial das corporaçãoes - como mecanismo reinante de perpetuação do seu suposto império.
Para os socialistas, sustentabilidade é a palavra chave de consolidação de um outro modelo superador do atual, cujo equilíbrio está no uso racional, não utilitarista dos fatores e meios de produção, assim como dos seres humanos não como recursos, mas como produtores e receptores únicos da vida.

4. E a qualidade de vida, como defendem?
Os capitalistas, baseados no seu espírito mercantil ampliado, cuja ética do individuo e da moral burguesa, levantaram as estruturas que relacionam qualidade de vida ao compromisso, ilimitado do ter, não importa o grau e a dimensão sustentável deste ter. A transformação do meio, da vida, do social em propriedade privada, cujos fins, mesmo quando aparecem sem objetivo lucrativo, não têm outra finalidade que não a de fazer dinheiro virar mais dinheiro. Para estes, a qualidade de vida é conseqüência do sucesso de implementar matrizes, copiadas, do processo de “desenvolvimento” das economias capitalistas tecnologicamente mais avançadas.
Os socialistas não conseguem dissociar qualidade de vida sem distribuição da riqueza e da renda, socialização e democratização dos fatores e meios de produção, finalização da opressão e exploração do trabalho e, substantivamente, a consolidação de uma renovada ética e moral pautadas no direito comum, social, frente a atual supremacia do direito individual. Para estes, a qualidade de vida tem a ver com a supremacia da vida sobre a mercadoria, do ser humano sobre o trabalhador escravizado, do Estado de transição sobre o moderno Estado de direito Burguês.

5. Quais as diferenças políticas entre os dois grupos?
O primeiro não quer mudar as bases que sustentam a histórica política depredadora do meio, cujo ente central de regulação da posse, foi, é, será o Estado, representante único na prática dos direitos das minorias populacionais que em realidade são maioria na concentração da riqueza e renda. Legitimam e legalizam as práticas de consolidação de um poder que, ainda quando é questionado na realidade concreta de sobrevivência das pessoas, não pode entrar, via mídia, numa brutal onda de deslegitimação sobre sua onipotência. Para estes, o nacional nada mais é do que a bandeira subordinada de um internacionalismo protagonizado pelo capital.
O segundo, reforça como projeto, a retomada não só do debate, mas da unificação de pautas que legitimem e legalizem a consolidação de um outro modelo produtivo de transição. Na transição, rumo a superação, o nacional que não poderá ser burguês, retoma as bases que o fazem ficar forte para, pouco a pouco, promover a necessária modificação do modelo. É popular porque as bases que o sustentam não são as da estrutura do capital e sim as dos reais promotores da geração de riqueza e renda mundiais: os trabalhadores formais e informais (a classe que vive do trabalho, e que por hora sobrevive da miséria humana condicionada por poucos proprietários, como definidores do destino de muitos).

6. Quais as implicações destes dois modos de conceber o desenvolvimento na sociedade atual?
As implicações do primeiro são a impossibilidade real da sociedade conseguir, nos próximos tempos, projetar seu futuro, sem que relegue a maioria a condição de miséria absoluta. Isto por sua vez, gerará um Estado cada vez mais parceiro do grande capital, cuja promoção máxima que poderá fazer do social, é dar, quando defina como funcional, assistência aos desfavorecidos, ao invés de romper com a estrutura que os desfavorece.
Já na pauta do segundo grupo, as implicações têm relação com a possibilidade de, em meio as catástrofes históricas implementadas pelo modelo dominante, estruturar, em unidade popular, a formação de uma consciência que dê um basta a exclusão, opressão, a condução do Estado de direito pelo capital. Um basta capaz de, após romper o grito frente a crise do humano em suas múltiplas dimensões, formar, na própria cotidianidade, um espaço de conscientização coletiva para não permitir que a informação siga deformando, como é mister ao longo do caminhar dominado pela minoria.
Os dois modelos tratam de escolhas, necessidades, produção e utilização dos recursos. O grupo dominante opta pela utilização (i)limitada e não regulada dos recursos naturais e do ser humano como mercadoria. Já o grupo dominado, mas em vias de superação, tem a escolha de criar novos modos de produção, utilizar os recursos de maneira diferenciada, gerar necessidades reais com base no humano e não no tecnológico inumanamente utilizado. Trata-se de uma opção: ou a continuidade da miséria humana, ou a elevação do humano, pelo trabalho digno, a um posto que resignifique a própria vida.

Roberta Traspadini
é economista, Educadora popular,
integrante da consulta popular/ES

domingo, 25 de outubro de 2009

Estadolatria versus democracia

JORNAL ESTADO DE S. PAULO
A21 ESPAÇO ABERTO SÁBADO, 17 DE OUTUBRO DE 2009

Estadolatria versus democracia

Mario César Flores Almirante de esquadra (reformado)



Do absolutismo português à democracia de massa deste início de século, no Brasil sempre foi parâmetro cultural o pretenso direito de esperar o apoio abrangente, se não a dádiva do Estado - da mão provedora, do protecionismo e emprego público à caridade assistencialista. Vivemos como rotina a sujeição da cidadania ao Estado (à estadania) e sempre admitimos que o progresso depende menos do esforço e sacrifício da sociedade e mais, ou até essencialmente, da iniciativa e de medidas do Estado.

Essa lógica leviatã é refletida na fantasia ufanista da grandeza nacional espontânea em razão da extensão territorial e dos recursos naturais do País. Grandeza, na verdade, virtual, cuja transformação em riqueza útil ao povo depende da correta dimensão da presença do Estado na vida nacional e da competência, da criatividade, do investimento e muito trabalho da sociedade ingredientes do excelente desenvolvimento dos Estados Unidos no século 19, de país colonial a primeira potência do mundo, em que o Estado era mais estímulo e regulador do que agente direto: ajudava,não atrapalhava.Se território e natureza fossem riqueza em SI, Suíça, Holanda e Bélgica seriam pobres; Luxemburgo, paupérrimo ... As manifestações de vaidade poética do Hino Nacional "gigante pela própria natureza", "deitado eternamente em berço esplêndido" e "impávido colosso" - refletem esse ufanismo inebriante. Faltam-lhes um complemento sobre o esforço necessário para que o "impávido colosso" se levante do "berço esplendido" e transforme "a própria natureza" em riqueza, para que o Brasil deixe de ser "o país do futuro", assim classificado há 70 anos por Stefan Zweig, passando ao patamar a que de fato o credencia seu potencial.

Existem na sociedade brasileira as condições necessárias à odisseia da grande transformação, haja vista o razoável sucesso de setores de nossa economia  é bem verdade que, mesmo eles, em geral fãs das muletas estatais, o cofre provedor e a alfândega protetora ... Mas ainda falta muito para engajá-la toda na reorientação da confortável ideia de grandeza corno fortuna natural ou propicIada pela mágica estatal, para a efetiva construção nacional. E isso não será fácil enquanto parte ponderável do caráter coletivo continuar dando preferência à expectativa da felicidade impulsionada pelo Estado sobrenatural do conceito expresso há quase 200 anos por Fréderic Bastiat: "O Estado é a grande ficção por meio da qual todo mundo se esforça para viver à custa de todo mundo." Todo mundo mesmo: dos políticos e apaniguados que se sentem com direito ao patrimonial  clientelismo do butim eleitoral, dos segmentos empresariais e seu trabalho associado, apoiados em financiamentos públicos, protecionismo e renúncias fiscais, dos servidores públicos que se creem credenciados às benesses de sócios preferenciais do Estado aos conformados consumidores de assistencialismo.

Tampouco será fácil enquanto grande parte da sociedade brasileira continuar aceitando, satisfeita, a euforia das ilusões, disseminada pela propaganda narcótica enaltecedora do estatismo salvacionista, que se vale de fatos positivos (entre outros, na moda hoje o petróleo do pré-sal, por muito tempo ainda riqueza virtual do "gigante pela própria natureza" ... ), metáforas fantasiosas e afirmações grandiloquentes para dissimular as atribulações que castigam o País: a preocupante involução aética da política, cujos efeitos permeiam tudo o mais, a iniquidade social e a exclusão conformada pelas bolsas disso e daquilo, o precário, quadro da educação e da saúde ( com gente morrendo nos corredores de hospitais públicos  o que não constrange a previsão de obras grandiosas para eventos esportivos internacionais que deixarão felizes empreiteiras e afins ... ), o desenfreado desrespeito à lei, do delito trivial à violência e criminalidade epidêmicas, estradas destruídas, portos ineficientes, regime carcerário desumano, Judiciário de lentidão proporcional à sua singularidade no universo salarial brasileiro, Legislativo desacreditado pela semiparalisia e por práticas de (eu¬femismo delicado) discutível virtude ... dezenas de deficiências que afrontam a euforia.

Aqui, como em qualquer parte do mundo, não é seguro afirmar que a saga política seja indefinidamente imune à combinação das deficiências do Estado no desempenho de suas responsabilidades com a fé fanática no Estado e a abdicação da cidadania ao Estado, seja imune à frustração psicopolítica do caráter coletivo, propenso à dádiva do "impávido colosso" e do gigantismo "pela própria natureza", ao êxtase do carnaval e feriadão, às idéias paradisíacas de bem-estar natural (da redução da jornada de trabalho, que o "impávido colosso" mágico viabilizaria sem perda de competitividade e sem custo para o consumidor ... ), a que a euforia ilusória aporta seu alento anestésico.

Não há hoje clima para regimes ao estilo século 20. Mas não se pode afirmar idêntica implausibilidade para o salvacionismo messiâniaco travestido de legalidade eleitoral-democrática, sob lideranças carismático-sebastianistas hábeis na fórmula romana "pão e circo": o pão assistencialista e o circo do oba-oba eufórico, hoje muito pré-salgado e agora também olímpico, a que a mídia cooptada pela propaganda aporta sua prestidigitação, em especial a TV, cuja imagem dispensa o raciocínio crítico. Tudo no figurino populista-estatista que parece estar voltando à América do Sul, a reboque da Venezuela, após 25 anos de recesso.

Os autoritarismos, da esquerda à direita, sempre estiveram afinados com o estatismo exacerbado e a abdicação da cidadania ao Estado, ambos inconciliáveis com a democracia plena. Até porque, se o Estado é pretendido como provedor onipresente, deve caber-lhe naturalmente a autoridade correspondente uma equação histórica de que o Brasil aparentemente não está livre.


• Tenho a pretensão que CIDADÃOS  e políticos sérios (se os temos) tenham acesso a este texto visto que na maioria dos lugares se lê a parte esportiva, social, econômica e policial e no resto o jornal serve apenas de “status” de assinante.
Não leitores.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Qual a principal função do ENEM?

Qual a principal função do ENEM?
        Opiniões publicadas na Revista Pátio Ano XII Nº 46 Maio/Jul 2008

• PAULO RENATO SOUZA

na época deputado federal por São Paulo.
http://www.paulorenatosouza.com.br/
“ O objetivo principal do ENEM é
avaliar o quanto os jovens egressos
do ensino médio estão preparados
para o exercicio da cidadania e para os
passos futuros de suas vidas”

         Parte do sucesso do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), um programa de avaliação educacional de caráter voluntário que criamos há oito anos, pode ser ex¬plicada pelo fato de seus resultados complementarem o vestibular como critério para o ingresso no ensino superior. Certamente, a alta adesão dos alunos e das instituições universitárias - hoje mais de 500 partici¬pam do exame - também se explica por esse atrativo. Mas o ENEM não veio à luz com o fim exclusivo de criar mais uma porta para o acesso a universidades e facul¬dades, embora isso não seja antagônico ao seu objeti¬vo principal: avaliar em que medida os jovens egressos do ensino médio estão preparados para o exercicio da cidadania e para os passos futuros de suas vidas, sejam eles o ingresso no mercado de trabalho, em uma uni¬versidade ou em um curso profissionalizante.
Antes de tudo, o ENEM tem como meta avaliar o quanto foram desenvolvidas as habilidades e competên¬cias dos concluintes do ensino médio, associadas aos con¬teúdos disciplinares. Em outras palavras, o ENEM permite aferir se a educação básica, ao final do seu ciclo, cumpriu a sua missão principal, que na sociedade do conhecimen to é a de desenvolver a capacidade de pensar, raciodnar, criticar e aprender. Mostra, por exemplo, se os jovens são capazes de dominar linguagens, entender fenômenos naturais e sodais, solucionar problemas, construir argu¬mentos, aplicar os conhecimentos.
Ao mesmo tempo, serve como um instrumento de auto-avaliação para os egressos do ensino médio e mu¬nicia suas famílias para que verifiquem o quanto seus filhos estão preparados para a vida, para a continui¬dade do estudo, para a obtenção de um trabalho. É forçoso que se diga que o ENEM segue rigorosamente parâmetros adotados pelas nações do primeiro mundo, o que quer dizer que o jovem brasileiro que obtiver um bom desempenho está tão preparado para o futuro quanto um jovem europeu ou americano. Talvez isso explique o alto grau de interesse dos pais pelo desem¬penho de seus filhos no exame.
Devo confessar que meu objetivo principal ao criar o ENEM foi sinalizar para todos os sistemas educacio¬nais de nosso país quais eram os objetivos e parâme¬tros da reforma do ensino médio que acabávamos de conceituar. Ela redefiniu currículos e priorizou a in¬terdisciplinaridade e a aplicação prática dos conheci¬mentos. Correspondeu também às tendências interna¬cionais que ressaltam a necessidade da formação geral na educação básica.
Quando criamos o ENEM, levamos em consideração ainda os notáveis avanços verificados na ciência da pe¬dagogia e na área da avaliação educacional. Em síntese, as habilidades e competências avaliadas no ENEM têm referências internacionais e utilizam metodologias apro¬priadas. Como ocorre em outros países, o teste, que no Brasil tem características próprias, incita a recodificar o aprendizado conforme uma filosofia que busca forjar cidadãos com autonomia intelectual, moral e social, os quais estão aptos a vivenciar a democracia.
As competências priorizadas na avaliação dizem respeito ao dominio da lingua portuguesa, das lin¬guagens especificas das áreas matemática, artistica e cientifica; à aplicação de conceitos para a compreen¬são de fenômenos naturais, processos histórico-geo¬gráficos e manifestações artisticas. Os alunos também são avaliados quanto à sua capacidade de utilização de dados e informações para a tomada de decisões diante de situações-problema, assim como para a construção de argumentação consistente. Outra competência ava¬liada é a capacidade de elaboração de propostas de in¬tervenção na realidade, respeitando valores humanos e considerando a diversidade sociocultural do pais.
Hoje, o ENEM é uma unanimidade nacional, mas nem sempre foi assim. Quando o implantamos, enfrentamos enormes resistências. A ele se opuseram corporativismo e os que, por razões ideológicas, acu¬saram-nos de abrir, com a sua implantação, "as por tas para a privatização do ensino médio". Felizmente, esse tempo passou, e o MEC, no atual governo, utiliza os resultados do exame para a seleção dos alunos aten¬didos pelo Prouni. Isso é muito bom, porque fortalece o programa e a sua credibilidade, mas seus objetivos maiores não podem ser abandonados, se querémos as¬segurar um futuro digno para os nossos jovens.


• HAMILTON DE GODOY WIELEWICKI
professor do Departamento de Metodologia do Ensino
da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e doutorando em Educação
na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) .
hgw@smail.ufsm.br

"O papel central do ENEM
desloca-se,com o tempo,
de parâmetro de mensuração
de qual idade de ensino a mecanismo
de política de Estado para acesso
ao ensino superior"



Em educação, alguns temas têm uma propensão à con¬trovérsia, seja pelos antagonismos que suscitam ou pelo seu impacto na sociedade. O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), cabendo em ambas categorias, converte-se num exemplo prototípico de tema contro¬verso. Por um lado, antagoniza posições sobre avalia¬ção, financiamento da educação e políticas públicas e, por outro, pode impactar sensivelmente o acesso à educação superior - notadamente a privada - por parte de egressos da educação básica da rede pública. Assim, é prudente registrar o desejo de contribuir com uma discussão não-dogmática do ENEM, o que implica ponderar tanto sobre seus possíveis deméritos quanto sobre seus pretensos méritos.
Para começar, vale a pena lembrar que o ENEM, como instrumento padronizado nacional de avalia¬ção baseado numa matriz de competências, surge em 1998 com o objetivo de funcionar como parâmetro de mensuração de qualidade de ensino. Isso vai constituir razão suficientemente robusta para os ataques que so¬fre, seja pelos que questionam a ênfase avaliativa das políticas do governo que então o propunha, seja por aqueles que questionam (em distintas bases e graus de intensidade) as matrizes de competências e as visões de conhecimento que as sustentam.
Apesar de manter a mesma matriz conceitual desde sua origem, seu papel vai, com o tempo, ficando mais voltado para operar como mecanismo de política de es¬tado para acesso ao ensino superior. Assim, seu percur¬so existencial implica pelo menos duas constatações.
A primeira é a de que o ENEM, como um exame padronizado nacional, incorpora na sua gênese uma dificuldade ontológica de difícil equação: como ser padronizado, nacional e ainda assim dar conta das pe¬culiaridades dos processo de aprendizagem dos alunos? Quanto a isso, se presumirmos que o foco de preocupa¬ção do ENEM é deslocado daquilo que foi aprendido pelo aluno (típico dos exames vestibulares tradicionais) para o que ele consegue fazer com o que aprendeu, haveria, então, alguma possibilidade de desonerar o alunos (e a escola) da extensa lista de "conteúdos", cujo sentido lhes é muitas vezes obscuro, abrindo margem, com isso, para que a escola volte sua atenção para os sentidos que ela têm no contexto em que se insere .
A segunda constatação é que pouco se tem discuti¬do sobre o significado dos resultados do ENEM. Em re¬lação a isso, um primeiro aspecto a salientar é que em 2006, praticamente três em cada quatro estudantes que se submeteram ao ENEM o fizeram na expectativa de conseguir uma vaga no ensino superior. Tal expec¬tativa, por sua vez, pode estimular as escolas de edu¬cação básica a pensarem sobre o papel que têm tido (ou não) no desempenho de seus egressos no exame e, por conseguinte, gerar aquilo que a literatura sobre avaliação chama de efeito retroativo sobre o ensino especialmente pela perspectiva de conquista de va¬gas no ensino superior da rede privada - uma legião crescente de alunos de escolas públicas, o que confi¬gura mais uma situação paradoxal, isto é, um exame público que oferece aos egressos do sistema público de educação básica vagas na rede privada do ensino superior, enquanto as vagas do sistema público de en¬sino continuam sendo ocupadas majoritariamente pe¬los egressos da educação básica do sistema privado.
Um Outro aspecto que a discussão sobre o ENEM suscita é que, se há um relativo consenso (quiçá ina¬dequado) de que a educação básica do sistema públi¬co oferece menor qualidade do que aquela oferecida pelas escolas privadas, a busca desenfreada pelas va¬gas nas universidades públicas soa um tanto parado¬xal, ainda mais num cenário (ainda recente) de forte reação às políticas afirmativas empreendidas por tais universidades. Assim, questionar a validade do ENEM como mecanismo de acesso a ensino superior de certo modo escamoteia a discussão central, qual seja, o fato de que mais do que pensar em mecanismos de restri¬ção é fundamental pensar (e construir) mecanismos de ampliação efetiva de acesso.
Nesse particular há, no entanto, um dado sobre o perfil dos participantes do ENEM que merece cuidadosa consideração. Os pais de cerca de 60% desses jovens se¬quer concluíram o ensino fundamental e mais da metade se auto declaram negros ou pardos, o que pode indicar um fenômeno sociologicamente relevante, na medida em que talvez estejamos diante de uma perspectiva de mudança de um quadro que é perverso inclusive quan¬to à persistência intergeracional do analfabetismo e da baixa escolaridade. Visto sob esse prisma, o maior méri¬to do ENEM pode estar naquilo que ele pode tornar-se ¬um mecanismo de mudança social - do que o conjunto de controvérsias que ele consegue ser.
Em função disso, e levando em conta o caráter não-disciplinar (ou interdisciplinar) do ENEM, a sinalização enviada para a escola é a de um modelo de organização de conhecimento que, se não abala as rígidas estruturas estanques das disciplinas escolares, ao menos aponta para a necessidade de um planejar e de um agir um pouco mais integrados.
Apesar das críticas aos modelos baseados numa matriz de competências, há cada vez menos dúvidas de que o modelo de memorização enciclopédica de conhecimento - característico da maioria dos exames vestibulares tradicionais - pode não ser a medida mais adequada para selecionar os estudantes pretensamen¬te mais aptos a ingressar na educação superior. Curio¬samente, entretanto, poucas universidades públicas têm incorporado em seus processos seletivos uma lógi¬ca menos propensa a premiar os dotes mnemônicos de seus candidatos, em detrimento da sua capacidade de estabelecer relações mais significativas entre os con¬teúdos aprendidos e sua vida.
Além disso, como tema cercado de controvérsia, não se pode deixar de mencionar que o ENEM atrai .





Como Fica O ENEM ?


E agora?


Continua confiável ?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

No Sinai

No Sinai

Luiz Felipe Pondé




Quando Voce estiver lendo esta coluna no dia 28 de setembro, caro leitor, eu estarei de jejum na sinagoga. Hoje é o Dia do Perdão, data máxima do calendário judaico. O que significa o Dia do Perdão? Um bom ponto de partida para pensar em seu significado é a passagem da Bíblia hebraica quando os hebreus, ao pé do monte Sinai, aguardam o retorno de seu líder Moisés com as tábuas da Lei.

Mas nem tudo saiu como se esperava: Moisés atrasa seu retorno (fica 40 dias na montanha) e o povo perde a paciência Quando volta, encontra os recém libertos da escravidão no Egito adorando um bezerro de ouro. Deus, irritado, mata a metade ali mesmo. A outra metade será con¬denada a vagar perdida pelo deserto do Sinai até que morram todos e seus filhos possam, enfim, entrar na terra prometida. E aí está o perdão. Dirá o leitor irritado: "Mas onde?".

Antes de tudo, caro leitor, tenha em mente que perdão e justiça não são a mesma coisa. O perdão é maior do que a justiça, ele cabe ali onde a justiça não seria suficiente. Você po¬de ser justo com alguma pessoa, sem perdoá-la.

Claro que muitos de nós, pessoas educadas, não acreditam que esta seja uma narrativa histórica, mas sim mítica. O que é um mito? Muita gente boa estudou isso: os psicólogos S. Freud e C.G. Jun& os historiadores das religiões M. Eliade, J. Campbell e K. Armstrong, e o filósofo E. Cassirer. Um modo minimamente correto de entender é pensar que o mito não descreve necessaria¬mente um fato histórico, mas sim vivências humanas ancestrais que falam do significado da vida.

Pessoalmente prefiro ler textos bíblicos como narrativas literárias, além, é claro, de lê-los como livros sagrados, caso a leitura seja confessional, que não é meu caso aqui. Minha restrição a leitura psicologizante ou marxista de textos bíblicos é porque estas leituras pecam por ferir a própria "trama", a fim de reafirmar a teoria que usamos para lê-lo. Explico- me.

O crítico Anatol Rosenfeld escreveu um ensaio em sua coletânea "Texto e Contexto" Cedo Perspectiva) chamado "Psicologia Profunda e Crítica", no qual ele dá boas dicas do porque não abordar um textoliterário reduzindo-o a excessos psicologizantes. Sua crítica cai sobre a tentativa de ler, por exemplo, Harnlet como mais um rapazinho que queria transar com a mãe e matar o próprio pai. Ou ler Santa Tereza d'Ávila em chave junguiana e verem seus escritos místicos mais um processo de individuação.

Acho que no caso freudiano a redução é ainda pior porque o conceito de inconsciente coletivo em Jung preserva um drama maior nos personagens do que uma mera "historinha de uma menina esquisita e sua mania neurótica por Deus". E, por isso, ele sustenta a dramaticidade para além da "mera" sexualidade neurótica da menina.

Para Rosenfeld, não devemos psicologizar personagens porque, ao fazer isso, vamos a "Hamlet" apenas para reencontramós a teoria de Freud e assim perdemos "Hamlet" e ficamos apenas com seu "mesquinho" complexo de Édipo. O mesmo, digo eu, acontece quando lemos a Bíblia à cata de interpretações marxistas ou políticas: lemos a Bíblia para rever a luta de classes e a disputa política, e o drama específico narrado se perde, junto com a força de seus personagens.

Neste sentido, se não entendermos a relação entre o "personagem" Deus de Israel e os heróis bíblicos para além de reduções psicológicas ou políticas, perdemos a força do perdão dado no Sinai.

Deus não precisa perdoar ninguém porque Ele não precisa de ninguém. Este é o personagem. Quando o povo trai a aliança depois de tudo que Ele fez, Ele poderia simplesmente destruir tudo. Fosse Ele ape¬nas justo, o sol pararia de brilhar.

A ideia que Deus seja misericordioso nasce do fato que Ele nos criou e é paciente conosco sem precisar sê-lo. Daí a afirmação comum na BÍblia hebraica de que Ele carrega o mundo na palma de Sua mão en¬quanto nós somos uma sombra que passa.

O filósofo judeu AI. Heschel (século 20) diz, num texto dedicado ao Dia do Perdão, que neste dia esta¬mos de pé diante de Deus. O sentimento é de "pahad" (medo em hebraico). Devemos abaixar a cabeça e tremer, desnudando um coração que diante de Deus é sempre nu. Evidente que, além do temor, está em questão as grandes virtudes hebraicas, a gratidão, a coragem e a humildade. O pó em nós estremece diante da imensidão infinita que é Deus. Ao ouvir o coração disparado de medo, devemos escutar nele a alegria que é existir.

ponde. folha@uol.com.br





O perdão é maior do que a justiça,

ele cabe ali onde a justiça não seria suficiente
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